Hoje confesso que fiquei triste como sempre. Mas, pela primeira vez, triste por você.
Que outra mulher te veria além da sua casca? Você não entende que eu baixei a música do “Midnight Cowboy” e umas boas do Talking Heads, Vinícius de Morais e do Smiths porque achei divertido te fazer uma massa ouvindo algumas músicas que dão vontade de viver. Uma massa que você não vai comer porque está perdendo o paladar para o que a vida tem de verdadeiro e bom. É tanta comida estragada, plastificada e sem sal, que você está perdendo o paladar para mulheres como eu. E você não sabe como vale a pena gostar de alguém e acordar na casa dessa pessoa e tomar suco de manga lendo notícias malucas no jornal como o cara que acha que é vampiro. Tudo sem vírgula mesmo e, nem por isso, desequilibrado ou antes da hora.
Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que acordar com essa ressaca de coisas erradas e vazias. Ou sozinho e desesperado pra que algum amigo reafirme que o seu dia valerá a pena. Ou com alguma garotinha boba que vai namorar sua casca. E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz. A gente dá muitas risadas juntos. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida.
E você me olha com essa carinha banal de “me espera só mais um pouquinho”. Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta.
Volta porque pode até ter uma coxa mais dura. Pode até ter uma conta bancária mais recheada. Pode até ter alguma descolada que te deixe instigado. Mas não tem nenhuma melhor do que eu. Não tem.
Porque, quando você está com medo da vida, é na minha mania de rir de tudo que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é na minha neurose que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa. Eu sei de tudo. E eu passei os últimos meses escrevendo sobre como você era especial e como eu gostava de você e isso e aquilo. Mas chega disso.
Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares deprê em que procura. E do quanto a sua felicidade sem mim deve ser pouca pra você viver reafirmando o quanto é feliz sem mim e principalmente viver reafirmando isso pra mim. Sabe o quê? Eu vou para a cama todo dia com 5 livros e uma saudade imensa de você. Ao invés de estar por aí caçando qualquer mala na rua pra te esquecer ou para me esquecer. Porque eu me banco sozinha e eu me banco com um coração. E não me sinto fraca ou boba ou perdendo meu tempo por causa disso. E eu malho todo dia igual a essas suas amiguinhas de quem você tanto gosta, mas tenho algo que certamente você não encontra nelas: assunto.
Bastante assunto.
Eu não faço desfile de moda todos os segundos do meu dia porque me acho bonita sem precisar de chapinha, salto alto e peito de pomba.
Eu tenho pena das mulheres que correm o tempo todo atrás de se tornarem a melhor fruta de uma feira. Pra depois serem apalpadas e terem seus bagaços cuspidos.
Também sou convidada para essas festinhas com gente “wanna be” que você adora. Mas eu já sou alguém e não preciso mais querer ser. E eu, finalmente, deixei de ter pena de mim por estar sem você e passei a ter pena de você por estar sem mim. Coitado.
Você me pergunta se já li “As horas” e me manda um trecho do livro. Não acho o trecho nada demais. A última vez que nos falamos faltavam dois dias para o Natal. E agora foi na sexta-feira da paixão. Você sempre lembra de mim dois dias antes de datas religiosas. Sua loucura é burocrática.
Você quer me contar que sente angústia e não sabe amar. Você sempre quer me contar que sente angústia e não sabe amar como se isso fizesse de você mais misterioso e complicado e “escolhido pelo capeta” do que os outros mortais. Ninguém sabe amar, todo mundo tenta amar porque é preciso pra não se matar, todo mundo ama entre essa de não saber e tentar e não se matar. Ter um estômago enjoado é o que nos diferencia de bonobos. Buhuhu pra você. Mimimi pra você.
Eu só quis tanto que você ficasse porque é mais fácil querer quando a pessoa já é mais um vulto de desculpas se esvaindo do que uma carne entregue e densa numa cama. Você foi embora esse dia e nunca mais voltou. A gente dançou Bluebird abraçadinho no show, a gente voltou com as janelas do carro bem abertas porque estava calor e o calor tinha cara de uma felicidade que corava e aquecia o sangue. Eu te abracei tomando cuidado pra não te sufocar quando você teve uma crise de ansiedade. Eu estava tendo uma crise de ansiedade mas a enxerguei melhor em você.
Eu amava você. E suas janelas emperradas e seus bonequinhos no banheiro e a voz mansa e doce de mal elemento e o cinismo genial me afastando de você enquanto eu queria amarrar meu cabelo no seu pé e seguir do seu lado mesmo sendo desconfortável. E de como seus olhos ficam assustadoramente psicóticos quando você bebe. Você foi embora nessa noite e nunca mais voltou.
Sua camiseta colorida eu dei. Sua meia puída eu joguei fora. Seu chinelo sujo com o nome dos noivos de um casamento eu guardei um tempo, pra lembrar que seus pés eram pequenos e gordinhos. Depois dei pra um faxineiro. Nesse dia do chinelo eu chorei. Chorei muito. Era sua última coisa comigo e ela foi pro faxineiro e isso me pareceu tão injusto e triste e sujo de se fazer.
Você já faz um ano e cinco meses. Ficamos juntos três semanas e dois dias há um ano e cinco meses. Um milhão de pessoas de um milhão de galáxias ficaram três semanas e dois dias comigo. Mas você eu já desisti de esquecer. Pra sempre eu vou sentir um elevador de gelo seco em todos os meus andares quando você aparece de alguma maneira. Quando tem foto sua, quando tem recado seu, quando tem você atravessando a avenida.
Esse texto nem ficou bom, porque agora amo outra pessoa e então eu nem consigo te dizer nada incrivelmente bonito. Mas queria vomitar a última micrograma de sal viciante no fundo de um saquinho de salgadinhos que fazem mal mas que, na pressa, às vezes usamos como refeição.
Lembro de você, antes de atender o entregador de pizza, me dizendo que não aguentava mais fazer o personagem “homem perfeito pra mim”.
Eu nunca te preferi por causa dos seus trechos de livros, músicas, mãos dadas, dedicações corporais, gostos para poesias, diálogos inteligentes e comidas entregues em casa. Eu nunca te preferi por causa das suas histórias de aventuras ou do seu sucesso enquanto jovem talentoso e gato com carrão a apartamento no metro quadrado mais caro.
Eu nunca te preferi como uma menina que te prefere porque você é um personagem muito trabalhado para ser preferível. Tudo isso era só uma boa música e uma boa fotografia e uma boa direção e um bom roteiro. Mas eu amava o negativo preto e branco e de ponta-cabeça. A fagulha de ideia da sua existência. O seu nariz aristocrático e a sua boca corada mesmo quando você empalidecia no começo da noite.
Eu amava você dormindo, de barriga pra baixo, os cachos espalhados no meu nariz, o suor na nuca secando ao longo da noite, sua barriga enchendo de ar de forma errada porque você respira mal. Eu amava você chamando seu bruxismo de vampirismo e depois dizendo que eu te deixava nervoso. Eu amava o medo que você tinha de eu te amar em tão pouco tempo e do sentimento ser grande o suficiente para eu perceber, colorir e decorar suas minuciosidades desimportantes.
Amava sem você fazer nada, só respirando pesado, só lutando com seu peito angustiado, só perdido, só tentando ficar mesmo não sabendo como.
Bia ficou hospedada em casa. Irmã de uma amiga, veio estudar moda. Logo conheceu Thiago, garoto lindo de 27 anos. Bia tem 18. Thiago era diretor de planejamento em uma agência de publicidade bacana, tinha dois labradores no apartamento enorme que comprou com o próprio suor e gostava de Los Hermanos, Smiths, Radiohead e Novos Baianos. Na época, conheci Gabriel. Excelente gosto musical, nota 7 em sexo (gostoso mas pouco preocupado comigo) e com a melhor das qualidades: piadista. Adoro homem engraçado. Pirei em Gabriel. Quis casar com Gabriel, mas ele sumiu depois de um mês. Fiquei péssima.
Thiago ligou para Bia insistentemente nas primeiras semanas, depois sumiu. Pensei que Bia daria um trabalhão, chorando pelos cantos de casa, tomando meus calmantes para dormir, comendo meus chocolates. Mas, assim que Thiago sumiu, ela já estava saindo com André. Eu seguia sofrendo por Gabriel. Mandando mensagens para ele. André tem 30 anos e trabalha no mercado financeiro. Triatleta, fala quatro línguas e, pelo que Bia contava, fazia o melhor sexo oral de sua vida. André a levou a Angra com a família. Encantada, Bia nem se lembrava de Thiago. Sua preocupação era o que fazer com Daniel, o cara que conhecera no curso de moda e que estava enlouquecido de amor. Transava com ele no banheiro da escola. Eu seguia sofrendo por Gabriel. Indo a astrólogas. Pensando em mortes suaves. Comprando roupas, bolsas, joias.
Bia, a essa altura do campeonato, já estava com Pedro, melhor amigo de Daniel. Daniel ligava sem parar, mas sem chance: Bia não gosta que peguem no pé. André estava de férias, só voltaria em 15 dias. Não telefonou, e Bia achou bom porque Thiago tinha reaparecido querendo namorar. Homens adoram mulheres que não dão pela falta deles. Eu seguia sofrendo por Gabriel. Com saudade de seu cheiro, seu jeito de falar sorrindo, de seu pé pequeno, de como espremia os saquinhos de shoyo demoradamente, das crises de ansiedade que o faziam abrir a janela emperrada da área de serviço. Bia começou a namorar Thiago, mas exigiu que fosse sem compromisso. Terminou com Pedro, arrumou uma amiga para o Daniel e teve de dizer não a André. Voltou à sua cidade feliz, leve, jovem, tranquila, desligada, meio burrinha e com corrimento. Segui sofrendo por Gabriel, que certamente pegou horror à minha pessoa intensa, exagerada e maluca. A história acaba aqui, mas tem uma moral. Fazer o quê? Já tive o mundo aos meus pés, como a Bia. Minha curiosidade de provar novos rapazes e meu desapego em construir histórias deixavam apaixonados homens de todas as idades. Hoje, se escolho um homem é porque ele tem importância. Importância que a maioria não está disposta a ter, porque sonha com a Bia: uma menina leve, feliz e desencanada. Meus amores: a Bia só é tão legal porque está dando para outro. Mulher ou está dando trabalho ou está dando para outro.
Por dias sem fim ele havia me contado sobre seu mestrado em literatura, sobre suas aulas para decifrar Lacan, sobre sua facilidade em escolher empresas para injetar dinheiro. Mas esse era o blábláblá típico dos primeiros encontros. Todo homem razoavelmente interessante e grisalho versa bem sobre livros, psicanálise e negócios. Ou sabe mentir bem sobre eles.
“Eu adoro intelectuais” é o mantra que me faz colocar vestido, salto alto, rímel importado e aturar um restaurante metido a besta e uma comida com redução de alguma coisa. Eu vou porque adoro livros russos, adoro entender minhas pulsões de morte, adoro homens que falam “private equity” como se falassem “passe o sal”.
Adoro até que dá meia-noite, e meu cérebro vira abóbora. A vozinha realista dentro da minha cabeça começa a matracar “se liga na pança desse desgraçado” ou “a careca dele tá brilhando mais que o brinco de diamantes que você comprou em 100 vezes”. Tem também o “putaquelamerda que bereba é essa no seu queixo?”.
Foram anos de sofrimento, do pré-primário ao colegial. Vendo aqueles garotos esportistas, suados, olhos verdes. Sonhando com suas bocas e mãos e pés e sobrancelhas. Eles passavam por mim e eu me sentia um cinzeiro sujo numa UTI: completamente equivocada. Minha vontade era de cutucá-los e pedir desculpa. “Desculpa eu ser magrela e ter esse rodamoinho na franja, ok?”
Sonhei com esses rapazes durante toda a formação da minha libido. Eles pertenciam a um mundo secreto de festas, de roupas que ficavam bem no corpo, de amigos que riam de tudo, de casas na praia. O trauma é a única coisa realmente forte do nosso caráter.
Então, quando estou nos restaurantes, com meus acompanhantes e seus 842 mestrados, suas neuroses e suas verrugas peludas no antebraço, sempre me pego pensando “olha aquele delicinha da mesa ao lado, deve ser uma anta, coitado, mas que vontade de umedecer com a língua os gominhos da sua barriga perfumada”. Eu respiro fundo, renego, me odeio, aumento a terapia… mas o menino mais bonito da escola ainda é meu algoz.
Sim, eu sei que existem homens bonitos e inteligentes e possíveis. Tudo isso no mesmo pacote. A vida não é tão cruel. Mas, aos 12 anos, naquele recreio em que riram da minha dança numa feira idiota sobre cultura regional, viver parecia uma imensa injustiça. E essa mágoa ainda é um lego quebrado, eternamente sem encaixe, vagando deprimido e vingativo pelo limbo das minhas memórias.
Eu duvido! Duvido que você não chame meu nome quando você sente falta de alguém, duvido que não sinta falta do meu carinho sempre tão sincero, falta de me contar como foi seu dia, as histórias da sua vida que sempre foram pra mim melhor do que qualquer novela. Duvido que você não me procure nas biscates que você pega por aí, sempre tão vazias. Vazias igual a sua liberdade idiota que nunca te serviu pra porra nenhuma. Talvez esse seja o nosso problema, eu sou completa demais pra sua vidinha mais ou menos. Eu sinto, eu penso, eu falo, eu te conheço, isso te assusta né? “Tô invadindo seu espaço? Desculpa.” Essa fui eu, durante todo esse tempo, me desculpando por que mesmo? Me diminui pra você ficar maior, pra você não me perceber entrando na sua vida. Se você pudesse sentir o quanto isso dói você quem iria se desculpar. Eu queria ligar pra você, e te falar sem pausas tudo que eu ensaio toda vez que você me magoa, mas nunca digo pra não te magoar, afinal você não me faz mal por mal, e talvez esse seja o pior mal que se possa fazer a alguém, tão natural. Bobagem, como se algum ensaio no mundo fosse me deixar firme depois do seu ‘alô’. Então é isso, tô te escrevendo! Sempre fui mais segura com as palavras. Tô te escrevendo pra talvez um dia te enviar, mas to escrevendo. E não é sobre você dessa vez, é sobre mim. Sobre o quanto eu sou boa, igual a mim tá difícil meu bem! Sobre como eu não preciso usar cinco centímetros de saia e um decote no umbigo pra ser mulher; Sobre como, ainda assim, só eu sei fazer de você um homem.Sobre muitas coisas, mas principalmente, sobre quantos homens eu poderia estar saindo nesse exato minuto. Não é com você, é comigo sabe? Por exemplo, EU te idealizo nesse momento como o melhor, não que você seja. Acho legal você brincar com a sorte, mas se eu fosse você não teria tanta certeza da minha posse assim! Talvez ninguém tenha te avisado ainda, então desculpa se eu vou te dar essa notícia sem te preparar antes, mas a porra do mundo não gira em torno do seu umbigo! Ficou chocado? Acontece. Só queria te dar um conselho, em nome da nossa amizade e meu carinho por você, tira uma mão da liberdade e segura um terço. Fica assim, agarrado nas duas coisas sabe? E reza, reza muito pra não aparecer ninguém que mexa comigo enquanto você fica brincando de não saber o que quer. Porque eu sou amor, e ainda que não seja o seu, essa é a minha essência! E você não deve acreditar muito nessa ideia, pelas tantas vezes que eu quase fui, mas um dia eu vou.. sempre foi assim! Mas deixa eu te contar um segredo: se eu for, eu não volto.









